Realidade e fantasia em preto e branco

Realidade e fantasia em preto e branco

O colorido abandonou por alguns minutos a tela de cinema do Palácio dos Festivais na noite desta segunda-feira (29) e deixou que o preto e branco predominasse durante a exibição dos dois curtas-metragens brasileiros “Ingrid” e “O Ex-Mágico”.

O primeiro levava o nome do personagem que documentava: Ingrid, atriz de teatro transexual e militante, que se comoveu tanto com a exibição que não conseguiu comparecer à coletiva de imprensa nesta segunda-feira (30). “Ela chorou antes, durante e depois do filme”, disse o produtor Jacson Dias.

Com a emoção à flor da pele, Ingrid preferiu descansar no hotel. “Se sentiu muito exposta”, completou Maick Hannder, diretor deste curta sensível, elegante e político. Sim, político porque explora o universo LGBT em sua faceta cruel: o preconceito. Porque traz uma personagem forte, vítima de desrespeito e imposições sociais violentas. Porque, na voz de Ingrid, conta histórias de dificuldades vivenciadas quando criança, por não entender seu corpo, por detestar o espelho. O corpo era de homem, mas ela, a Ingrid, sempre foi mulher.

Temas urgentes de acordo com Fatmarlei Lunardelli, jornalista, professora e uma das responsáveis pela seleção dos curtas-metragens brasileiros nesta 44ª edição do Festival de Cinema de Gramado. E o cinema acaba sendo, segundo ela, importante para a expressão da comunidade. “São filmes que se impõem”, finalizou Fatmarlei.

O essencial, para a equipe, era a história. Mas para contá-la de forma adequada era preciso apurar a parte técnica. A voz deveria exercer o protagonismo na trama. Para isso, muito cuidado com a trilha sonora. A concepção do roteiro também precisou de atenção, porque foi preciso delicadeza para ouvir aquelas histórias e acrescentá-las ao curta, com apenas 7 minutos de duração, mas que impactou. “Queria que fosse muito cru”, afirmou Hannder.

Para trazer naturalidade e deixar Ingrid mais à vontade, Hannder encontrou uma solução: deixou, por alguns dias, um gravador em suas mãos para que, sozinha em sua intimidade, falasse sobre sua vida, histórias e dramas. Desta forma, sem um roteiro pré-definido, a montagem do curta se fez, com a inserção de uma trilha sonora cuidadosa e de imagens que delicadamente se mesclassem com seus relatos. “Não dá para identificar as partes do corpo porque justamente ela mesma não as identificava quando era criança também”, explicou Dias.

Desde o detalhe mais imperceptível de seu corpo até o nu frontal, o filme é narrado por uma voz poderosa e instigante. “Eu não queria que nada distraísse as pessoas da voz dela”, disse o diretor. A ideia inicial do curta era entrevistar vários personagens que pudessem explorar a relação com sua própria aparência. Mas, ao saber mais sobre Ingrid, Hannder não teve dúvidas: “Ela é tão forte que esse filme tinha que ser só sobre ela. Era urgente”, afirmou.

O mágico dos anos 30

Contrapondo a biografia de Ingrid, “O Ex-Mágico” traz outra atmosfera. Mas, apesar de ser em formato de desenho animado, a trama é profunda e poética. O estilo preto e branco, assim como em “Ingrid”, confere ainda mais intensidade à produção.

Baseado no conto “O Ex-Mágico da Taberna Minhota”, de Murilo Rubião, precursor da literatura fantástica do Brasil, o filme traz um homem exausto com sua condição de vida, mas frustrado pelas inúmeras tentativas fracassadas de suicidar-se: como é um mágico, seus poderes não o permitem dar fim à vida. Ele está preso ao corpo e à infelicidade da realidade que não quer mais para si.

“Uma história triste”, diz a sinopse. Bom, não é mais necessário ser um filme tradicional para relatar um drama. Hoje em dia, a infinidade de recursos está disponível para contar diferentes histórias em diferentes formatos. Animações não servem apenas para ‘animar’. Elas já estão se consolidando como um dos instrumentos possíveis para se falar em comédia, amor, solidão, tristeza. Já não é mais exclusividade das crianças. Há, inclusive, cada vez mais adultos adeptos às animações.

E é neste sentido que o filme de Maurício Nunes e Olimpio Costa se insere. Após quatro anos de muito trabalho, nasce “O Ex-Mágico”, feito de maneira tradicional com alguns toques da tecnologia 3D. Nascido na década de 1940, o conto de Rubião traz, em sua narrativa, a forma como um trabalhador nos anos 1930 sobrevive. Para o desenho, Costa contou que a ideia era mostrar como o Recife daquela época podia ser fantasmagórico. “Toda arquitetura foi baseada no bairro São José”, disse.

Além disso, uma das preocupações dos diretores era “pensar em um fantástico próprio, latinoamericano, brasileiro”. Eles não queriam algo internacionalizado, mas, pelo contrário, uma produção que visivelmente mostrasse o trabalhador brasileiro e suas peculiaridades. “É como se a imposição da modernidade [presente na trama] deixasse fantasmas de um Brasil arcaico”, finalizou Costa.

Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura apresentam o 44º Festival de Cinema de Gramado. Patrocínio: BNDES, Stella Artois e Petrobras, e copatrocínio do Banrisul - Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Todos pelo Rio Grande. Apoio especial: Sundance Channel e Snowland. Apoio: Caracol Chocolates, Stemac, Lojas Pompéia, More Bass, G2 Net Sul, CiaRio, O2 Produções, Canal Brasil, Revista de Cinema, RBSTV, CVC, FreeCharge e Savarauto. Apoio institucional: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Fundacine, ACCIRS, IECINE, APTC e SIAV, TVE e FM Cultura. Agência Oficial: BusTour. Ingressos: Imply. Direção Artística: Histórias Incríveis. Agente Cultural: AM Produções. Promoção: Prefeitura de Gramado. Financiamento: Pró-Cultura RS, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Realização: Gramadotur, Ministério da Cultura, Governo Federal.

 

Foto: Cleiton Thiele/Agência PressPhoto

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