Surrealismo e velhice na tela do cinema

Surrealismo e velhice na tela do cinema

Carinhoso, cativante, delicado, encantador, simpático e querido. Todos esses adjetivos se aplicam para descrever o curta-metragem “Rosinha”, pelo menos foi o que se viu no debate do filme na manhã desta sexta-feira (2). Dirigido por Gui Campos, o filme prende o espectador, pela trama que se desenrola de maneira surpreendente. A terceira idade é retratada com leveza e bom humor, trazendo personagens carismáticos, com destaque a uma atriz muito importante do teatro e do cinema brasileiros: Maria Alice Vergueiros.

Campos conheceu Maria quando ela apresentava a peça “As Três Velhas”, escrita pelo dramaturgo e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky. “Eu me apaixonei pelos dois”, afirmou. E completou: “Desde esse momento fiquei com Maria Alice na cabeça”. Mas ele nunca imaginaria que a grande diretora e atriz de teatro se tornaria, algum tempo depois, a sua Rosinha. “Foi uma generosidade de ela entrar num projeto de curta-metragem”, afirmou. Depois da exibição do filme em Gramado, o produtor João Procópio não esconde sua torcida para que Maria receba o Kikito de Melhor Atriz: “Seria um reconhecimento grande ao seu trabalho”.

Nesta 44ª edição do Festival de Cinema de Gramado, o tema “velhice” foi recorrente na tela do Palácio dos Festivais. Foi pela vontade de retratar a velhice que nasceu “Rosinha”, falando sobre a decrepitude do corpo, mas sem perder o bom humor e irreverência. A referência de Campos eram seus avós, que moravam no interior de Minas Gerais, e “eram super tradicionalistas”. É nesta atmosfera que nasce seu filme, trazendo a ideia de como as pessoas “se deixam podar” sobre o que as outras pessoas estão pensando ou comentando.

“Rosinha” é sobre respeito aos mais velhos. É sobre “aceitação e reconhecimento das necessidades”, conforme explicou Procópio. “Os velhos são os guardiões do conhecimento. São os anciões. Então tem a ver com respeito, mas sem caretice, deixando o novo chegar”, finalizou Campos.

Surreal

O título é grande, mas a história cabe em 15 minutos. O curta “O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico” fala sobre a perda da própria identidade. Daquilo que poderíamos ter sido, mas que não fomos. Do que gostaríamos de ter feito e não fizemos. Sobre o animal que vive dentro de cada um de nós. “Que ‘cara’ eu poderia ter sido se não tivesse me entregado a esse modelo social vigente?”, explicou Arménio Dias Filho, roteirista do filme. E ainda completa: “É um encontro com ele mesmo”.

Do toque sobrenatural misturado a curva psicológica, o curta nasceu com o intuito de ser um filme de terror, explica Dias Filho: “Minha ideia quando escrevi era fazer um filme de terror, porque não há nada mais aterrorizante do que você se deparar com seu fracasso”. Flertando com o surrealismo, o filme queria passar a impressão do que acontece quando sonhamos. Formatos mudam, pessoas parecem outras, há estranhamento. Dias Filho explica que quis homenagear o surrealismo.

Inicialmente nascido para ser uma peça de teatro, Allan Souza Lima, diretor, roteirista e ator do filme, resolveu adaptá-lo e transformá-lo em um curta-metragem. Porém, a trama admite diversos formatos, segundo Lima: “só muda a perspectiva dos personagens”.

Na verdade, a trama é uma mistura de existencialismo com um “realismo visceral”, conforme explica Lima, que teve em Chuck Palahniuk, autor de “O Clube da Luta”, uma de suas referências. “O personagem começa a se questionar: o que eu estou fazendo da minha vida?”, afirma. Outra referência de Lima para a criação do roteiro foi “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, porque “a gente se preocupa mais com o que a pessoa tem do que com o que ela é”.

Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura apresentam o 44º Festival de Cinema de Gramado. Patrocínio: BNDES, Stella Artois e Petrobras, e copatrocínio do Banrisul - Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Todos pelo Rio Grande. Apoio especial: Sundance Channel e Snowland. Apoio: Caracol Chocolates, Stemac, Lojas Pompéia, More Bass, G2 Net Sul, CiaRio, O2 Produções, Canal Brasil, Revista de Cinema, RBSTV, CVC, FreeCharge e Savarauto. Apoio institucional: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Fundacine, ACCIRS, IECINE, APTC e SIAV, TVE e FM Cultura. Agência Oficial: BusTour. Ingressos: Imply. Direção Artística: Histórias Incríveis. Agente Cultural: AM Produções. Promoção: Prefeitura de Gramado. Financiamento: Pró-Cultura RS, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Realização: Gramadotur, Ministério da Cultura, Governo Federal.

Foto: Cleiton Thiele/Agência PressPhoto

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